sopão do tião


Outro diário de férias

Embora ainda não haja nada para contar além do frisson de ansiedade que mesmo uma folga de dez dias tem por ritual provocar

Desde as 21h da última terça-feira e até o presente momento, num processo que em algum momento chegará à sua plenitude, o autor deste Sopão encontra-se em férias de dez dias. Digo que dá-se um processo em curso porque, ao contrário de muita gente, não me coloco, me sinto ou me reconheço em férias no exato momento em que acabo de dar minha última gota suada de trabalho no período regulamentar e anterior à validação jurídica do dito período. Pra mim, as férias vão chegando devagar - e aí já se imagina o problema quando se trata de férias curtas, como essas, de dez dias, dou-me o direito de repetir e reafirmar. Até a poeira elétrica e persistente do estresse da rotina profissional flutuar, preguiçosa, até a base do chão, é tempo, viu? De maneiras que é nesse intervalo em que estou: nem de férias nem batendo meu ponto (o que, no meu caso, não vão fazer pouco da minha condição de meio servidor público/ meio jornalista, significar trabalhar pesado).

Dá-se então, com a solenidade das próclises menos usuais, uma espécie de pico de estresse movido a puro deleite. Assim, ó: durante uns dois ou três dias logo que as férias oficiais se iniciam, ativa-se o vulcão interno da minha pessoa, este liquidificador embutido nas entranhas do corpo e da mente que não está nem aí para a urgente e necessária placidez a que deve corresponder qualquer descanso digno dessa palavra, e no lugar de me acalmar, acabo me danando, como diz aquele bolero de Angela Ro Rô. O início das férias, mesmo das férias de curtíssima duração, é esse pequeno inferno de querer fazer tudo, ver todos os filmes, ler todos os livros, assistir a todos os programas de televisão, tuitar com todos os amigos, blogar até acabarem os itens todos anotados na cadernetinha, ouvir todos aqueles CDs que relembram essa ou aquela fase do passado, além dos novos recém-comprados e cujos plásticos sequer foram abertos, ver tudo quanto é filme gravado no HD da televisão etc etc etc etc etc etc.

E ainda ter que administrar os filhos que, como os de William Bonner e Fátima Bernardes, estão de folga o resto da semana (cadê a ética das escolas? se fosse o Congresso já tava na porrada), além de dar conta de uma série de pequenas demandas que a gente adora deixar para fazer...  nas férias! Cortar o cabelo, mandar lavar o carro, pagar aquela conta, mandar consertar aquele aparelho enguiçado etc etc etc etc etc. De maneira que esta postagem completamente inútil - tanto quanto costumam ser os meus primeiros dias de férias, mesmo que sejam férias breves como essas - é só pra dizer que, bem, a gente parece ter mesmo uma índole de trabalhador que demora pra se acostumar com a idéia de parar tudo por uns dias. Diante dessa situação, a gente entra em estado de alerta - quando deveria ingressar em situação de desleixo.

De terça à noite para cá, assisti a um filme no cinema - "Meu País", esse que fez certo sucesso no recém-encerrado Festival de Cinema de Brasília -, terminei de ler o "Solar da Fossa", a "biografia sentimental" de um prédio feita por Toninho Vaz (com certo desleixo mais recomendável a quem está de férias e não escrevendo um livro, devo dizer), levei as crianças ao clube da Câmara somente para suportar a barulheira de uma comemoração dispensável do Dia das Crianças (além da maior chuva, mas chuva aqui é sempre coisa boa), ganhei um bônus para piruetar por duas longas horas na livraria Fnac e adjacências, o que me permitiu ouvir um tantão de músicas e ao final comprar uns poucos CDs, dei umas caminhadas, cortei o cabelo, mandei lavar o carro e li a introdução do livro de Miguel Nicolelis, o "Muito além do nosso eu" que, bênçãos e aleluias científicos, é de uma redação capturante se vocês me permitem usar um adjetivo menos usual.

E se mais nenhum outro desnecessário motivo houver, a postagem se jusfitifica pelo mero hábito sopalino de registrar em posts vagos como redação de isopor as férias do autor. Câmbio, desligo, prometendo voltar em brave com novidades vencidas sobre essas férias picotadas. 



Escrito por tião às 17h12
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Edmilson e os doces espinhos da flor de cactus

Naquele tempo, não havia arquivos de música, iPod, mídia multilaser e programas de baixar música. Mas havia fitas K7 com duração de 45, 60 ou até 90 minutos onde se podia gravar uma programação musical a partir dos sulcos negros dos discos de vinil. E havia um interesse em descobrir toda a força dos ritmos brasileiros, do frevo ao xote. Havia, sim, pouco dinheiro no bolso para custear as tais fitas, como havia uma urgência em desbravar o novo disco de Raimundo Fagner ou Zé Ramalho. Havia, para além disso tudo, um sujeito calmo, quase calado, com a aparência do aspirante a cantor humilde que ele era e cuja profissão era gravar as tais fitas para a gente. Estamos em Parelhas, o ano é 1980 ou 1981 e vamos chamá-lo de Edmilson - porque eu esqueci injustamente o nome verdadeiro dele e porque aqui importa menos a identificação do que a identidade por trás da qual ele se escondeu naquele tempo de fitas K7, bolachões e raros três em um.

Edmilson tinha um rosto meio triste, umas barbas e bigodes ralos, camisa aberta no peito e um previsível cordão, salvo engano adornado por um ainda mais previsível medalhão à la Roberto. Ganhava a vida gravando fitas K7 numa das principais lojas da cidade, onde se podia comprar roupas, discos, cinturões de fivela brilhante e ou outros artigos. A sessão de discos era ótima: não tínhamos do que reclamar. Em destaque na vitrine, "Gal Tropical" e o Fagner de "Eternas Ondas", entre outros. Edmilson passava o dia num cantinho entre o balcão e as prateleiras da loja, gravando em fitas K7 as músicas que os clientes deixavam anotadas em cadernos - música angariadas na vasta discoteca que a loja mantinha. Às vezes, Edmilson curtia as músicas que gravava. Noutras - quase sempre - era obrigado, por dever de ofício, a ouvir milhares de vezes aqueles sucessos retumbantes e repetitivos que desde sempre agradam à maioria mas carecem de sabor depois de tocadas três ou quatro vezes.

Acho que Edmilson gostava quando eu aparecia por lá com meus tostões e a felicidade de poder gravar mais uma fita K7 onde cabiam os baianos todos, Rita Lee, Chico Buarque, sucessos internacionais, músicas de comercial de cigarro e, claro, as últimas novidades da geração de artistas nordestinos que sacudiu o sudeste a partir do início dos anos 80. Até Pink Floyd (o disco "The final cut" inteiro) eu mandei gravar na loja onde Edmilson trabalhava. A loja era um ótimo lugar para ouvir música, com um belo equipamento de som, coisa rara e muito cara naquela época (ou "naquele tempo", como dizia sempre o padre Raimundo na abertura dos sermões). Era bom passar tempo por lá conversando com Edmilson.

Sobre o que conversárvamos? Lembro de Edmilson reclamando de um certo tipo de música - não lembro qual - dizendo que não dava para chamar os amigos pra casa e ficar ouvindo "aquilo" enquanto se batia papo na sala. Desconfio que era algo mais avançado para a cabeça dele. Porque era bem simplório o mundo de Edmilson, morador da chamada "rua do cemitério", que não era bem uma rua mas um conjunto delas, casario humilde, bem próximo do cemitério municipal. Mas não se enganem, que Edmilson não estava morto. Ele tinha, sim, suas abreviadas ambições. Notava-se que tentava vestir-se com um aspirante a pop star de interior. Tovaca violão - o que, acreditem, não era muito bem visto naquele tempo e naquele lugar. Muito provavelmente viajava a bordo de substâncias tão naturais quanto ilícitas. Namorou uma garota de outro "meio social" e, sem a aprovaçaõ da família dela, o romance foi desfeito. E, claro - este é o item principal dessa lista -, Edmilson cantava. Tentou a "Mais Bela Voz do Sertão", que era então um célebre concurso de cantores promovido pela Rádio Rural de Caicó, com direito a ginásios lotados em todas as cidades do Seridó e transmissão radiofônica de finais e semifinais, com torcida e tudo. Minha memória é falha, mas tenho quase certeza que Edmilson - que pegou já a fase meio decadente do concurso - não agradou muito na "Mais Bela Voz".

Parecia que Edmilson estava condenado a viver naquele cantinho entre o balcão e a prateleira da loja onde gravava fitas K7 com músicas que quase sempre odiava. O fato é que, alguns anos depois, eu já estabelecido longe da cidade, minha mãe me deu a notícia: Edmilson (Ah, amigo Edmilson, como eu queria lembrar seu nome, perdoe-me) havia se matado. Parece que o encontraram enforcado na sala de casa - aquela mesma onde se recusava a ouvir com os amigos certo tipo de música.

Mas eu lembro um tipo de música que Edmilson certamente levaria para tocar em casa, colocando as caixas acústicas bem nos cantos da sala que era para dar mais densidade ao som (isso é uma dica que ele me deu e eu nunca esqueci). Essa música que agradava aos ouvidos de Edmilson era o som do conjunto Flor de Cactus - um pioneiro da música pop gravada em Natal, ali no início dos anos 80. Flor de Cactus era um surpreendente precusor de "A Cor do Som", para dar uma idéia da sonoridade a quem não pegou essa época e seus signos. Pois bem: foi por causa do Flor de Cactus e sua música pré-Babal, pré-Pedro Mendes e pré-Valéria e Cida Lobo que lembrei de Edmilson mesmo sem lembrar seu nome.

É que foi Edmilson quem gravou para mim boa parte das faixas de um dos três LPs lançados pelo Flor de Cactus - aquele que contém antológica gravação de "Pepitas de Fogo", de Zé Ramalho" - naquele tempo e naquele lugar, Parelhas, mil novecentos e oitenta um ou dois. Ontem, na casa de um amigo aqui em Brasília, encontrei num blogue desses de baixar música os tais três LPs do Flor de Cactus. Meu amigo, Renato Ferraz, gravou um deles pra mim. Um disco que ouço desde hoje à tarde, quase ininterruptamente, vezes e vezes, como fazia Edmilson com todo tipo de música que lhe pediam lá na loja. Não é uma audição, é um arrepio. Vocês imaginem o que é para os seus ouvidos reencontrar um conjunto de músicas que você cansou de ouvir e cantorolar quando era alegre e jovem, mais de vinte anos atrás?

E junto com a música veio a lembrança de Edmilson, sua breve estada entre nós, sua sombra de cantor anônimo, sua rotina de gravações em K7 e seu violão discriminado e mudo. Agora mesmo, enquanto escrevo, estou ouvindo o Flor de Cactus:

"Quero ser o vento dessa montanha / arrodeando a noite, soprando no seu coração
E quando for de madrugada / Serei galo cantador"

Canta, Edmilson, na montanha que lhe couber ocupar. Aqui embaixo, sou grato às suas gravações que ajudaram a me dar uma formação musical vasta, sensível e curiosa. Quem dera todos tivessem contado com elas.

P.S: a propósito, segue o endereço do blogue onde estão as informações e os LPs do Flor de Cactus, disponíveis para você baixar sem culpa, pois que jamais lançados em CD:
http://www.sombarato.blogspot.com/

AOS LEITORES: para ler as demais postagens da série "Diário de férias", incluindo fotos, vá ao blogue original, em www.sopaodotiao.blogspot.com.



Escrito por tião às 15h02
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Diário de férias - 3

Primeiro filme da matarona que prometi dar de presente a mim mesmo. Maratona de cinema "no cinema", bem entendido. Um compromisso familiar me impediu de planejar melhor a estréia. Terminou que a escolha acabou sendo feita por uma conveniência de horário. O resultado disso é que, pela segunda vez na vida, entrei numa sala de exibição para assistir a um filme do senhor Paul Thomas Anderson sobre o qual - falo do filme, não do cineasta - eu não sabia absolutamente nada. Não havia lido uma linha sequer sobre o tal filme. Isso é coisa muito rara de acontecer especialmente hoje em dia, quando a gente é bombardeado por informação e termina lendo/ouvindo/vendo até o que não quer - digo, especialmente o que não quer, o que não interessa, mas, enfim, isso é outro papo.


As parcas informações que eu tinha sobre "Sangue negro" eram: 1) o fato de ser estrelado por Daniel Day-Lewis, que já ganhou prêmios pela interpretação e é favorito ao Oscar. Ou seja: o óbvio, porque todo mundo sabe que a cada cinco anos Daniel Day-Lewis faz um filme com uma interpretação visceral e arrebata elogios e prêmios. E 2) que se tratava da história de um explorador de petróleo no início do século. Sendo assim, ratifico o que disse no primeiro parágrafo - entrei na sala sem nada saber do filme.


Curioso é que, há alguns anos, acho que em 1995 ou 96, uma amiga minha e de Rejane sugeriu que a gente fosse ao cinema, num desses passeios noturnos comuns pelos shoppings de Brasília. Entrei na sala tão desinformado quanto ontem. E era outro filme de Paul Thomas Anderson ("Magnólia"). Deve ser alguma espécie de sina que me faz ver os filmes desse moço assim à queima-roupa. Muita gente acha melhor assim, para não ser influenciado por opiniões alheias. Eu gosto de ter alguma informação prévia. Aliás, não se trata exatamente de gostar, mas de algo inevitável. Minha curiosidade é maior que minha independência - eis outra das minhas fraquezas que vocês conhecem tão bem.


Pois é, não foi uma boa idéia abrir minha prometida maratona com um filme assim no tapa. "Sangue negro" é algo a que se assiste de mãos crispadas o tempo inteiro. É um filme que se compõe de uma tensão quase ininterrupta, tensão esta construída à base de cortes bruscos, filmagem quase tátil, trilha sonora que produz ranhuras nos ouvidos como se fora um conjunto de unhas afiadas sobre uma lousa lisa, silêncios plenos de explosões sonoras, enfrentamentos terminais e outros recursos. Mesmo assim, a impressão final quando as luzes se acenderam depois de uma última e devastadora cena, não foi boa.


Deixe voltar um pouco: o filme está sendo muito elogiado, mas ali da minha cadeirinha do Cinemark o que eu via, levando em conta tais elogios de que vim a saber depois, era mais um esforço de aprovação do que um prazer de fruição. "Sangue negro" não é bem o tipo de filme de a que convém fazer ressalvas. A cartilha do cinéfilo de bom gosto obriga que se elogie, que o compare a "Cidadão Kane" e "Assim caminha a humanidade". Já o que eu vi, no meu canto, foi um belo início de filme, com cenas em que as imagens discursam poderosamente como há muito não se vê no cinemão atual. Depois, eu vi um filme que cresce nesta tensão quase muda gritando as ambições de seu personagem central até uma cena definitiva - quando uma torre de prospecção de petróleo explode em gases e óleo, transformando-se numa bola de fogo que chamusca tudo e todos no filme, para o bem e para o mal. Isso tudo é narrado com imagens poderosas, o que talvez esteja levando os críticos a classificar o filme como "épico" - na minha cabeça, é muito mais um anti-épico.


Depois da cena da explosão, parece que começou um outro filme, em que um parente desconhecido traz para aquela história com sotaque meio bíblico um punhado de cenas com diálogos extensos e especulativos - o oposto exato do silêncio que o início do mesmo filme supunha. A esta altura, presenciei palavras e situações carregadas de simbolismos em torno de questões como maldade, humanidade, obsessão e paternidade - essas duas últimas, segundo o filme, matérias incompatíveis.


Tudo isso é para ser visto por um espectador de mãos crispadas, aqui e ali apunhalado nos ouvidos pela expressiva, mecânica e dramaticamente incisiva música do guitarrista do Radiohead. São recursos válidos, pouco usuais, que fogem da cartilha de macetes do cinema convencional. O problema é a escala. Quando faltava uma meia hora para o filme terminar, eu já estava exausto. Talvez eu seja o público errado, ou talvez o dia não fosse ontem, ou talvez pelo fato de lá fora ainda estar chovendo, o fato é que toda essa saga maldita sobre sombrios espíritos que mistura ambição material e hipocrisia espiritual me deixou a impressão de um retrato borrado pintado no ar, sem um suporte onde o espectador possa se pendurar enquanto é açoitado pelos seus belos planos. O que há de sobra em dramaturgia interior falta em contextualização externa.


A história do explorador independente e obsessivo de petróleo é contada muito de dentro pra fora, o filme quase penetra nas cartilagens e fibras internas de Daniel Day-Lewis. Há metáforas visuais arrebatadoras sim, como o inferno que tanto se processa no fundo do poço de onde brota o óleo quando no céu azul onde esse mesmo óleo se consome em chamas. Cá embaixo ou lá em cima, não há salvação. É tudo maldição da primeira à última cema - especialmente na última, que Paul Thomas Anderson elegeu para ficar na sua memória.


E para não deixar passar em branco: há um grande ator nascendo no cinema americano enquanto Daniel Day-Lewis colhe seus louros habituais. Preste atenção no pastorzinho de araque e veja como ele é bem defendido por Paul Dano, propietário de tamanha carga de dissimulação interpretativa que o personagem exige. É tanto poder de dissimulação que me lembrou o personagem Julien de Sorel, protagonista do romance "O vermelho e o negro", de Stendhal. Se você já leu (se não, começe já!) vai entender do que estou falando. A propósito: não por acaso, esse moço, Paul Dano, é aquele garoto que não falava uma palavra em "Pequena miss Sunshine". Lembrou?


Escrito por tião às 14h04
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PALAVRA DE HISTORIADORA

Recebi da minha amigona Flávia Assaf um e-mail muito interessante sobre o livro "Eu não sou cachorro, não", objeto de laudatária e propagandística postagem recente do Sopão. Desculpe, Oligarquia (não confundam alhos com bugalhos, esse é apenas um apelido carinhoso que botamos na companheira Flávia já lá se vão uns verões), mas não resisti: mesmo sem pedir sua autorização, resolvi colar aqui o texto do seu e-mail para ilustrar a mente inquieta dos nossos bravos leitores. Seria desperdício não fazê-lo, proclisticamente falando. Ao e-mail (que, diga-se, é coisa de profissional, pois que se trata de uma estudiosa dos meandros da História, como se conferirá pelo texto propriamente dito):


"li seu texto sobre o EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO.incrível como é difícil convencer algumas pessoas a lê-lo. é o preconceito que continua agindo.sugeri o livro para um trabalho no último período da UFRN, no curso de brasil repúblico II. o professor fez careta, mas topou. ficou um trabalho super-interessante. chegamos à conclusão que eles eram perseguidos por uma questão de diferença de visão de mundo entre classes mesmo. esquematizando grosseiramente, é assim:os generais de 64 eram os tenetnes de 30, ou seja, a classe média que surgiu em 30 e que chegou ao poder em 68. eles procuravam se diferenciar dos "nobres" pelo trabalho, pela moral rígida, pela ética protestante, enfim.o ideal de "brasil grande" que foi proposto pela "gloriosa" era a representação dessa mentalidade: não tinha lugar para a vagabundagem, para a boêmia, para a ..., como direi?..., putaria e a viadagem.quando os "bregas" vinham com o mundo real, os milicos piravam! afinal, aquilo não era para acontecer no mundinho que eles idealizaram. daí, tentavam esconder debaixo do tapete.era uma luta ideológica mais sutil, né?o autor veio ao encontro de escritores de natal e, bobamente, ficou falando somente da censura do livro sobre o rei. esse livro é muito melhor que o outro. e ele não precisa ficar na posição de vítima, fica mais bonito na foto. pena que a facilidade da vitimização pegou o rapaz."



Escrito por tião às 11h49
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Diário de férias - 2

Diário número dois, epifania número um. Foi agorinha mesmo. Animado com o sol lá fora, saí serelepe para uma caminhada de uma hora entre alamedas verdejantes. Bom dia sol, bom dia céu. Bom dia porra nenhuma. Bastou o caminhante aqui botar os pés no pilotis para o fotógrafo São Pedro cismar de filmar um noir de plástico do tipo E la nave va e mudar a luz todinha. Foi sim, como se diz: o tempo virou. Tudo embranqueceu e o cinzão se anunciou no céu lá pras bandas de São Sebastião. Achei que era chuvinha passageira, mas não, meu irmão. Bastou mudar de quadra para o toró se materilizar, liquefazendo o esporte que me restou.

Mas não achei ruim. É pra chover? Então que chova, ora. Chove chuva, chove sem parar. E dá-lhe cortina d'água, transformando o ensaio de experiência natural em epifania de férias. Brigado, Pedrão: depois de anos e anos eu voltei a tomar aquele banho de chuva, óculos protegido pela viseira do boné, de maneira que nem a miopia foi um problema. Vi tudinho: cada córrego de meio-fio, riachos temporários de canto de rua, poças destruidoras de tênis, regatos sob árvores respingantes. É bonita a chuva entre as calçadinhas mínimas do Plano Piloto. Só faltou o barquinho de papel - que, não, faltou não, existiu sim embora na qualidade de inventado.

Dois parágrafos tá bom? Convenceu-se da epifania? Não. Ah, então tire férias nem que seja por uma tarde. Pegue uma folga, um banco de horas ou invente que passou mal, alguém morreu, alguém nasceu. Só não dá pra encomendar a chuva, mas epifania que é epifania não é assim não, meus camaradas. É preciso estar disponível, ligar uma antena tão imaginário quanto o barquinho de papel, olhar pro chão, olhar pro céu. Aspirar a cidade e caminhar por ela como se fora por mares nunca dantes navegados. Reinventar um tempo e um lugar. Tente. Talvez até chova um pouco. Aqui ou em Macaíba, ainda haverá de ser tempo para uma derradeira chuva do caju.

P.S.: A chuva da foto é outra, não vou enganar vocês. Mas repare na distorção: como é importante, de vez em quando, tirar as coisas do lugar só pra ver o efeito.



Escrito por tião às 11h45
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TITINA E OS MICRÓBIOS DO CASARÃO

Uma vez, numa tarde seridoense, foi todo mundo ver o fim do dia nas margens do Gargalheiras. Eram tempos pré-cianobactérias, de ocasos descontaminados. Eu e Titina resolvemos tirar onda e improvisar um ensaio-cabeça em homenagem à estrita situação do momento. O resultado está nas fotos acima, que vocês podem apreciar enquanto micróbios aquáticos mais atirados não acabam de consumir os registros que sobraram daquelas outras águas. Sim, porque do casarão, coitado, mal sobraram as ruínas.



Escrito por tião às 13h43
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Livro ruim, música boa


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para maiores explicações, leia a postagem anterior (Diário de férias - 1)


Escrito por tião às 13h40
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DIÁRIO DE FÉRIAS - 1

Sem planejar, arranjei uma ótima maneira de abrir minha temporada de férias de 19 dias, que incluirá uma semana de Brasília - com os lugares onde a gente nunca pode ir das 15h às 22h dos dias úteis - e a viagem anual (ou seria semestral?) a Natal, com a obrigatória escala em Acari, desta vez com o auxílio luxuoso de uns dias (dois? três? ainda não sabemos exatamente) em Pipa. Como dizia, então, essa tão esperada maratona de tranqüilidade - sim, porque o melhor é passar por tudo isso sem pressa e sem hora marcada - começou no clima certo. Esse clima veio de um filme que comprei em outras férias e - como sempre faço, o atraso é uma das minhas qualidades, vocês sabem - só agora fui colocar no DVD para desfrutar.

Não há filme melhor para quem está atazanado de estresse - na verdade, depois de tanto esperar por essas férias já nem estou tão estressado assim, só um pouco ansioso - do que esse. Vocês já viram a capa aí ao lado, já sabem qual é o filme, de maneira que esse pastiche de suspense é só parte da minha prosa reticente com a qual os senhores já estão acostumados - fenômeno, diga-se, que se agrava sempre em temporadas assim, pré-férias ou quase feriados.

Pois até essa prosa reticente bem vem a calhar no caso aqui em questão. Explico: mas primeiro tenho que dizer, sem reticências, porque "O Grande Lebowski", filme dos irmãos Ethan e Joel Coen, é uma ótima pedida para você também iniciar suas tão esperadas férias. 1) porque, em se trantando dos irmãos Coen, é um saudável exercício de non sense; 2) porque em se tratando de um exercício de non sense executado com a competência de sempre pelos irmãos Coen, é um daqueles filmes de personagens que trazem as figuras mais inusitadas para compor uma comédia tão despretensiosa quanto original; e, mais importante, 3) porque o tal Lebowski, que prefere ser chamado apenas de "O Cara", é o melhor cicerone para quem está meio assim de olhão arregalado depois de tanto esperar, se perguntando em estado de catatonia absoluta: "E agora, que é que eu faço primeiro?"

Relaxe, que Jeff Brigdges vai lhe explicar tudinho. O mais provável é que ele diga: "nada". O filme é "antigo", do tipo que passou no cinema, depois saiu em vídeo e agora tá nas prateleiras de DVDs das Americanas, esse celeiro de velhas novidades onde eu sujo sempre minhas mãos. De maneira que a história é por demais conhecidas. Até porque não há muita história. O que há, entre uma paródia do filme policial noir (mas uma paródia que se respeita, nada de ficar só citando os outros que aí já é coisa de sanguessuga) e uma canção de Bob Dylan, é um sujeito desempregado, preguiçoso, relaxado e que passa os dias chapado jogando boliche com outros dois amigos tão curiosos quanto ele. Mas reparece no detalhe: ele não é nem entediado nem esnobe, só quer ficar na dele, ora! O resultado disso é um intensivo sobre como levar a vida na flauta. Claro que o filme não explica de onde "O Cara" tira dinheiro para pagar a comida que o mantém de pé - ele está muito mais preocupado com a perda de um tapete de estimação onde costumava deitar para viajar ao som do Credence. O resto é silêncio - quer dizer, indispensáveis reticências sem as quais a vida vira uma grande prestação de contas.

E vocês devem estar achando que eu me influenciei demais no filme pra escrever essas coisas assim meio indefinidas. Também explico: é que "O Grande Lebowski" é uma grande reticência. Nos extras, os irmãos Coen dizem que seguiram a estrutura narrativa do romance policial americano clássico, que apresenta um novo personagem a cada capítulo, compondo uma trama episódica. Pois o que me chamou a atenção revendo o filme pela terceira vez - e, acho, me divertindo ainda mais do que nas vezes anteriores - foi o caráter reticente de tudo aquilo lá. Isso está no fiapo de história que avança só um pouco para logo se perder numa viagem de Jeff Bridges, como está também - e principalmente - nas falas do personagem central. "O Cara", coitado, nunca encontra as palavras certas para expressar o que está pensando. Quando acha alguma coisa, inevitavelmente se perde no meio do caminho e deixa de novo tudo inconcluso. Lembra um pouco aquelas piadas sobre a prosódia de Gilberto Gil (com as quais eu nunca concordo; devo ser o único habitante do planeta a conseguir acompanhar tudinho o que diz o ministro - e ele sempre diz coisas que deveriam ser melhor ouvidas).

O que mais eu fiz no meu primeiro dia de férias além de rever "The Big Lebowki"? Nem precisava, né? Passe nas Americanas, cate, procure, investigue e se encontrar uma cópia, invista 12 contos em uma hora e pouco de diversão pop-surreal. Ah, sim, à noite, terminei de ler outro livro - algo sempre bom para se fazer no primeiro dia de férias, especialmente quando o livro não é lá essas coisas. "A palavra náufraga" é uma coletânea de textos sobre cinema escritos pelo crítico/jornalista Antonio Gonçalves Filho. É coisa passada, que encontrei no sebo, onde sempre sou atraído para a estante de publicações especializadas em cinema. Dessa vez, não funcionou. O livro republica textos do crítico já estampados em jornais sem sequer se preocupar em apagar os registros temporais - e tome "que estréia hoje em São Paulo". Tudo bem que ele avisa sobre isso nos preâmbulos, mas nem assim, não é? Tão rigoroso na avaliação dos filmes e tão relapso na edição dos próprios comentários.

Além do mais, é uma crítica do tipo "Ilustrada dos anos 80". Esnobe e discricionária, passa ao largo de qualquer tipo de cinema com um mínimo apelo popular, uma qualquer empatia com o público médio. Bom mesmo só os mais inacessíveis. E os "iniciados", vocês hão de desconfiar, nem sempre estão com essa bola toda. Muitas vezes estão apenas em busca de distinção. Segregação pode ser uma prática tão cultural quando social. O que ficou foi apenas uma vontade de rever alguns filmes da época, como "Noites de Cabíria" - e só. Ainda bem que, enquanto os olhos se encarregavam de fechar esse livro, os ouvidos se abriam para coisas boas, iniciáticas ou não. E nem preciso dizer os nomes: veja na postagem seguinte as capas dos CDs que o recado tá dado. E até o próximo Diário de férias.


Escrito por tião às 13h38
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Dê cabo da virose você também

Quando o mergulhador vai fundo demais, precisa retornar à superfície aos poucos que é pra regular a pressão. Caso contrário, vira uma bomba humana prestes a se espatifar em milhões de estilhaços de carne, vísceras e sangue. Vocês já viram isso, nas lições vespertinas de "Viagem ao fundo do mar", pra ficar num exemplo só. Eu estou vivendo um pouco isso agora, claro, em escala metafórica que a vida de todo dia não tem narração em off nem pausa para o comercial, muito menos as soluções mágicas que o próximo episódio obrigatoriamente trárá.

Que papo é esse, impacientam-se os amigos leitores. É prosa de convalescente. Saí do ar por exatas três semanas - uma hibernação que incluiu aqui o espaço do blogue - derrubado por aquilo que, na falta de nome melhor, os médicos de Brasília, cidade especializada na matéria, chamam de "virose". A danada me transformou numa pasta de gente, um creme bolorento de dor no corpo, calafrios e cefaléia aguda modulada por uma fraqueza tipo zero ponto zero. Faltei ao trabalho alguns dias, no que as módicas licenças médicas permitiram - bem menos do que o necessário. Em casa, virei prisioneiro de Morfeu - e pra ser feliz, porque o melhor que me aconteceu neste período foi o excesso de sono. Uma vez que, acordado, eu era só uma coletânea de dores e incômodos corporais dispersos.

Fiquem tranquilo, não era ela, a nova bruxa silvestre que derrama seus encantos fatais sobre intrépidos caçadores de cachoeiras em Pirenópolis e adjacências - ou seja, bem aqui e bem ali onde passamos parte da semana de final de ano. O prazo de validade da picada do mosquito transmissor já havia vencido quando surgiram esses outros sintomas. Eu também já havia oferecido meu braço branquelo ao beijo frio da vacina tão esperada. Fiz exames de sorologia - isso quer dizer um tipo de exame que detecta se você está sofrendo de dengue e outras doenças de nomes menos pronunciáveis. Deu tudo negativo.

Era virose. E quando se trata de virose, o jeito é esperar. Se o estado do cidadão for por demais pastoso/desminlinguido, o máximo que dá pra fazer é sapecar pra dentro do corpo um tilenol ineficiente. Completadas as três semanas do tempo regulamentar da doencinha, o fato é que curei. Isso foi precisamente ontem, quarta-feira, 13 de fevereiro. E na conta final do estado de pastosidade, perdi feio: passei todo o carnaval de cama, assistindo a uma minissérie (Anos rebeldes) onde vez em quando lembrava do "Cachorro, não", o livro que foi objeto da postagem anterior. A certa altura, o mocinho comentava com a mocinha, indignado com a ignorância da empregada da casa e do porteiro do prédio: "Tá vendo? Dá pra gente entregar o destino do país a essa gente?" O mocinho, quem assistiu deve estar lembrado, era progressista. A mocinha era apenas covarde e individualista - mas como era bonita. O país, salvo engano, era o Brasil mesmo. Mudou muito, não é? Mas, nos aparelhos redecorados de certa classe média revolucionária e esclarecida, os penteados continuam os mesmos.

Também assisti ao filme "A concepção", o celebrado longa do diretor brasiliense José Eduardo Belmonte. Uma vez aqui no blogue, quando reclamei dos clichês nos filmes sobre (ou passados em) Brasília (a fita em questão era "Brasília 18%", de Nelson Pereira dos Santos), Klecius e Lobão me mandaram assistir imediatamtente ao filme de Belmonte. Pois bem, Klecius e Lobão: o filme é muito bom, sim, extremamente bem produzido e bem formatado. Mas ainda é um filme sobre filhos de diplomatas entediados na capital do cerrado. E a minha queixa, quando digo que o cinema brasileiro ainda não fez um filme sobre Brasília que realmente expresse o que é viver aqui, é exatamente essa: esse filme jamais realizado precisa abraçar esse povo todo que o Plano Piloto e as satélites juntam e separam o tempo todo, num processo de segregação que faz de Brasília o que ela realmente é, para além dos políticos, do Congresso, do presidente e das embaixadas. Isso "A concepção" não faz. Pra ser honesto, "O sonho não acabou", aquele filme meio precário dos anos 80, era até mais incisivo.

Agora eu vou acabar de dar cabo na minha virose assistindo ao documentário que Martin Scorsese fez sobre Bob Dylan, "No direction home". Espero ficar amarelo de satisfação. Febril, agora, só daqui a pouco, semana que vem, quando entrar de férias e iniciar uma maratona por cinemas, livrarias e outros lugares proibidos para quem trabalha em horário regulamentar. E na semana seguinte, vem Natal, Pipa e Acari, como sempre - e como é (sempre) bom.


Escrito por tião às 12h33
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Três livros - uma missa, uma memória, um marco
 
Três livros encerrados praticamente ao mesmo tempo - uma ficção, uma tese e alguma antropologia. Três temas diversos para atravessar esse final/início de ano chuvoso que se abateu sobre os dias de Brasília, pintando tudo de um branco fotofóbico. Da ficção já andei falando aqui, é aquela missa campal que ora parece enciclopédia, ora reza pelas cartilhas do grande teatro, ora suprasuma-se em literatura pura e viva. É a preleção verborrágica do padre Melville, o "Moby Dick" mais que ancestral - o romance que pesca baleias como quem fisga humanidades.

É preciso nadar no mar de palavras - às vezes adormecido e profundo, às vez revolto e tempestuoso - até a página 526 para que finalmente se dê o embate fatal contra a baleia mítica. Tamanha espera mais que explicita o objetivo da prosa, de usar a obsessiva busca pelo mamífero marinho apenas como mote para especular sobre as - às vezes também infrutíferas, às vezes nem tanto - buscas humanas. Enquanto você cursa um intensivo sobre a vida, as técnicas, as crenças e a antropologia ligeira vigente nos baleeiros de outrora, involuntariamente também mergulha em seus pequenos mares internos, infestados de tubarões e pontuado por navios naufragados de velas em decomposição.

Antropologia ligeira é o forte de "Velhos costumes do meu sertão", o pequeno clássico regional de Juvenal Lamartine que cansei de ver nas bibliotecas escolares, que sempre me chamou atenção pelas belas e realistas ilustrações - de Percy Lau - e que finalmente fui ler numa nova edição bancada pelo Sebo Vermelho e adquirada numa dessas bem-aventuradas viagens anuais a Natal. Outro dia eu coloquei aqui uma postagem ("As horas do sertanejo"), a título de curiosidade, mas que já muito adianta sobre o livro inteiro. Para um morador urbanizado do século XXI de Natal, por exemplo, o livro de Juvenal Lamartine - que foi governador do Rio Grande do Norte, ativista republicano e deputado federal no seu tempo - muito tem a informar sobre a vida precária do sertanejo clássico. Para o turista que hoje vai ao Nordeste e se surpreende e se farta diante de uma paçoca sertaneja, lá está no clássico de Juvenal a informação de que aquela era a comida que o sertanejo levava no alforje quando precisava fazer viagem de mais de um dia.

Poucos dias - dois, no máximo, caso o leitor disponha de tempo - é o que você levará para dar conta do terceiro livro dessa lista - e o que mais me despertou a atenção, abrindo inclusive um capítulo novo no meu catálogo de interesses a partir de agora. Sem mistério, é o livro-tese "Eu não sou cachorro, não", que toma emprestado o título do famoso bolero de Waldik Soriano para falar, simultaneamente, de temas como música cafona, memória coletiva, construção da história e, sim, senhor, exclusão cultural. Aposto que você não havia pensado nisso antes.

Nem eu. Mas fica difícil, depois de ler o trabalho de Paulo César de Araújo (sim, senhor, o autor da polêmica biografia arrestada de Roberto Carlos) não enxergar a história e o panorama cultural - especialmente o musical - brasileiro sem passar por esse ponto de vista. Que é muito simples: toda a historiografia sobre a música popular brasileira ignorou solenemente até agora a existência de figuras como o próprio Waldik Soriano, Nelson Ned, Aguinaldo Timóteo, Paulo Sérgio e Odair José, só pra ficar nos mais estudados ao longo do livro. A ressalva é a seguinte: você não precisa gostar deles, mas é forçoso reconhecer que eles existiram, venderam milhares de discos, foram efetivamente ídolos populares e, para além do epíteto de "cafonas", acabaram expressando ainda que involuntariamente (muitas vezes, corajosamente, como foi o caso de Odair José) o fenômeno do preconceito na nossa brava sociedade.
Eu sei, você sabe, Paulo César Araújo sabe, todos sabemos, eles eram apenas "cantores de empregadas" - classificação sintomática dada por uma classe média universitária que, só agora percebemos, não era assim tão avançada politicamente quanto sempre se supôs. Aliás, o livro de Paulo César deixa muito claro que essa historiografia sempre destacou a contribuição da MPB clássica na resistência à ditadura militar - ao mesmo tempo em que os cantores cafonas eram enquadrados na categoria dos colaboradores do regime. E o autor demostra por "a" mais "b" que não foi bem assim que as coisas aconteceram - e elas só passaram à posteridade com essa aparência ou por preguiça intelectual dos pesquisadores e jornalistas especializados ou por preconceito mesmo por parte desta mesma mídia, incapaz de ouvir qualquer voz que não fosse aquela vinda dos auto-falantes dos toténs da classe média universitária.

Por tudo isso, arrisco dizer aos meus parcos leitores que "Eu não sou cachorro, não" é um marco na biblioteca que aos poucos vem sendo construída no Brasil em torno da música popular e seus implicações sociais, políticas e econômicas. Um livro tão importante quando o hoje já clássico "Chega de saudade", de Ruy Castro - e seu exato reflexo invertido. Como num jogo de espelhos, o fato é que os dois se complementam exemplarmente. O primeiro surgiu num momento em que a bossa nova estava esquecida e teve o mérito de recuperar para as novas gerações a importância desse gênero musical na construção de uma música que, sendo brasileira, adquiriu uma sonoridade universal. O segundo - cuja chegadas às livrarias foi muito menos festejada do que o primeiro - abre um novo capítulo na construção da história e da memória coletiva do país, descontinando uma perspectiva que tem tudo a ver com o tempo que estamos vivendo.
Estou falando de um tempo marcado pela figura de um presidente da República que já foi migrante nordestino e torneiro mecânico - que já foi, efetivamente, um integrante do tão falado e tão pouco compreendido "povo" - e que, por isso mesmo, é alvo de uma rejeição social e midiática inédita na história do país. Mas cuja mera existência pode estar levando pesquisadores a abrir aquelas mesmas perspectivas de que se falou nos parágrafos anteriores. Uma perspectiva histórica, social e cultural que talvez não seja considerada "de bom gosto", mas que certamente será menos excludente.

"Eu não sou cachorro, não" está inscrito nesse panorama. Por isso ele não é um livro qualquer, ou mais um livro sobre música popular brasileira. E esse Paulo César de Araújo, com esse nome comum, vocês podem anotar, ainda vai dar muito o que falar.


Escrito por tião às 15h27
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A brincadeira de Soderbergh
 
Isso é que é ter poder. O cidadão faz filmes que caem no gosto médio das multidões, enche as burras - dele e dos produtores - de dinheiro, coleciona amigos tão endinheirados quanto influentes e, com essa bola toda, resolve, assim como quem não quer nada, brincar de fazer hoje em dia um filme exatamente como aqueles que só se produziam em meados dos anos 40, ainda no calor da propaganda de guerra ou na esteira imediata do final do conflito.

O cidadão é Steven Soderbergh; entre os amigos influentes está George Clooney; e o filme de que se fala aqui é "O segredo de Berlim (The good german, 2006)". É a última brincadeira entre amigos do diretor de "Traffic". E é um privilégio sem tamanho, uma divertida exibição de prestígio. Sim, porque trata-se quase de um jogo, uma cara e sofisticada gingana bancada por um cineasta que sabe como atingir o alvo das bilheterias quando quer - e arriscar uma produção menos consumível quando pode - e já fez isso uma meia dúzia de vezes, vide "Solaris" e outros títulos.

"O Mistério de Berlim" destaca-se por uma vestimenta à parte, que pode ser resumida assim: um quase remake de "Casablanca" misturado com "O terceiro homem", no que, do primeiro, capta a atmosfera de romance entre as brumas da espionagem e, do segundo, um certo clima de perseguição esfumaçada algo noir e muito Fredrick Forsyth. Deu pra entender? Não? Alugue o DVD, esparrame-se em lugar conveniente, empanturre-se de pipoca - se lhe apraz, porque é bem o caso em questão - e ligue o cérebro apenas quando necessário.

É porque o resultado dessa miscelânea - sabia que um dia nessa vida usaria essa palavra, mas isso é outro assunto - naturalmente não pode ser levado a sério. Tanto que uma sensação de paródia muito certamente vai sentar ao seu lado na poltrona e, vez em quando, soprar aquela risadinha irônica no seu ouvido. Especialmente no iníco e no final do filme - este, uma variação possível e, levando em conta o caráter da brincadeira, muito bem feita do célebre desfecho de "Casablanca".

No miolo do filme, até que, envolvido com a narrativa de luzes, sombras, desconfianças e - claro - assassinatos, você vai esquecer um pouco que está assistindo a uma imensa citação ou a um gigantesco passatempo de um cineasta consagrado. Vai se envolver, naturalmente. Vai até se extasiar, como no caso da cena em que Cate Blanchett caminha pelos esgotos subterrâneos de uma Berlim destruída. Soderbergh está se divertindo, mas nem por isso está de brincadeira: repare na iluminação dessa cena que, contrariando a paleta sombria do gênero filme-de-guerra em geral, espalha bolhas de luzes onde menos se espera que elas apareçam. Um quadro que se completa com a elegância da atriz caminhando entre poças e ratos.

Pra terminar a conversa, vamos ficar mesmo com Cate Blanchett. Não sei se pelo talento da atriz, não sei se pela condução do diretor, o fato é que, desde a primeira aparição, essa bela e competente mulher nos leva a uma inevitável comparação: como ela nos lembra Marlene Dietrich enganando meio mundo em "Testemunha de Acusação" ou exalando comentários mudos e maldosos em "A marca da maldade". Não é qualquer uma que consegue provocar esse tipo de associação.

Seja qual tenha sido a pretensão de Soderbergh, seu filme dá a impressão de que tudo não passou da brincadeira inconseqüente que de fato é (tanto que o filme aqui nem foi lançado nos cinemas, saiu direto no DVD). Mas o recheio nos presenteia com uma cena ou outra que vai além do simulacro, como convém a quem sabe fazer, domina o alvo e por isso mesmo esbanja poder.


Escrito por tião às 18h56
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Natal in technicolor

Começa com uma manhã de sol depois de uma noite ligeiramente chuvosa. Ou então com a música de um velho disco que, não sei por quê, dá na telha e a gente bota pra tocar. Ou ainda por meio daquela lombra orgânica que bate no corpo e na cabeça depois de uma caminhada mais puxada. Há vários portões para ela chegar, dos casuais aos mais enfeitados de expectativas. O fato é que, dezembro encerrado e janeiro plenamente instalado em sua cadeira novinha em folha, ela chega, toma assento e espalha seu perfume pelo ambiente inteiro.

Não se trata de uma pessoa, mas de um sentimento: ela, essa visitante anual que nunca falha, chama-se "saudade boa de Natal", ou "vontade de passar um tempo vivendo como se a praia estivesse ali na quadra ao lado", ou ainda "urgência de rever amigos". Pois é, meus amigos, ela chegou e já estamos, como sempre, nos entendendo muito bem. Outra noite, por exemplo, ouvi extasiado o CD de Babal, o segundo, aquele que começa com "In technicolor" - canção emblemática para a minha memória, pois que transporta de imediado para os idos de 1983, ali entre os cajueiros da escola agrícola de Jundiaí, onde eu costumava ouvir essa música no meu Motoradio AM, na programação da Rádio Nordeste de Natal (ou seria na velha Cabugi?), na voz e nos intrumentos dos caras do Flor de Cactus.

Nessas horas, ela é uma soberana pisando na minha pobre alma exilada. Achei pouco e botei, logo na seqüência, o CD de Cida Lobo que Rejane adora. Rejane, por sinal, veio lá do quarto dizer que eu só podia estar de sacanagem de botar aquele disco aquela hora, naquele final de noite, daquele jeito enfim. Rimos e dividimos com ela esse momento de rememoração feliz - "sábado é dia de feira lá no Alecrim..."

Quando ela chega, traz com ela um monte de coisas com as quais combina: a lembrança do sorriso de Titina, a calçada da casa de Dona Isabel, as poças d'água que a chuva noturna deixa nas pedras do Guaíra, o ventinho da rua Princesa Isabel, a quentura da casa de Sandra em Acari, a conversa anual com Ana Nossa Mana, a risada de Leônia Régia, a visita a Adriano e Flávia, a ansiedade de Rafael, o papo meio telepático com Max, o astral sempre elevado de Fátima (ou Fá, como abrevia Rê), o sorvete da lanchonete Chapinha, a fumaça dos ônibus na Ulisses Caldas, a comida do restaurante Farofa d'água em Ponta Negra, o prazer de comprar livros e DVDs no Miduêi, além dos imprevistos que fazem parte dos passeios improvisados rumo ao litoral norte ou ao sul.

A lista poderia ser maior mas o breve registro acima já deve ser suficiente para expressar a qualidade do clima que se instala quando ela chega. Sempre muito bem-vinda, sempre a mesma e no entanto sempre renovada.



Escrito por tião às 10h51
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Por falar em Coralina
 
A pobreza em toda volta, a luta obscura
de todas as mulheres goianas. No pilão, no tacho,
fundindo velas de sebo, no ferro de brasas de engomar.
Aceso sempre o forno de barro.
As quitandas de salvação, carreando pelos taboleiros
os abençoados vinténs, tão valedores, indispensáveis.

........

Recria sempre com valor
o pouco ou muito que te resta
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Essa é a tua luta.

Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade humana.
Esta é a tua safra.
(Techos de "Vintém de cobre - meias confissões de Aninha", UFG Editora, 1985)


Escrito por tião às 13h37
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Ano novo em Goiás



Escrito por tião às 13h35
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Notícias da transição

Nossa passagem de ano valeu um vintém de cobre de Cora Coralina. Ou seja: uma fortuna. Explico: nos últimos dias de 2007, despejamos malas, livros, brinquedos e outros apetrechos nos desvãos do Palio e descambamos rumo à cidade da poeta sexagenária, aquela descoberta nos idos dos 80 por um Drummond dominado por versos brasilieiramente goianos. Cidade de Goiás, antiga capital do estado homônimo, hoje vulgarmente chamada de Goiás Velho, titulação que não agrada à população local. Eles preferem somente "Goiás", numa limpeza verbal condizente com as feições e o feitio da cidade. No mapa propositadamente mal esboçado da passagem inteira, com uma semana livre pela frente, possibilidades de felicidade na capital propriamente dita - Goiânia, onde estivemos por um dia - e, para fechar (digo, para abrir) o ano, duas noites em Pirenópolis, que a vontade convocou.

Esse é diagrama externo de nossa passagem. Seus momentos intestinos comportam uma experiência ímpar, como ademais têm sido nossas amadoras viagens antes mesmo da presença nesse mundo de Cecília e Bernardo. Pois bem: saímos de 2007 e entramos em 2008 refugiados no precioso silêncio de um hotel-fazenda (mais para "pousada-fazenda") em Goiás Velho, quilometrozinhos de estrada de terra da sede do município, que visitamos uma ou duas vezes. Por exemplo, no quesito dessas visitas, uma delas se deu nas horas que antecederam a entrada deste janeiro. Noite, embarcamos no Palio para mais uma excursão à cidade, quase todos branqueados, as crianças já meio cansadas devido ao avançar da hora, em busca de um repasto reveiônico - e quem conhece Goiás Velho sabe que lá a comida é nota cem mas a espera é nota mil, no sentido inversamente proporcional à grandeza numérica. Será por isso que, quando afinal desaba nas mesas, os pratos são tão bons? Outra história.

Alimentados e à beira da zero hora, desabou, saborosa como os tais pratos, uma chuva de gotas cantantes. Sinfonia final à guisa de show copacabânico. A cidade tomada, praça superlotada, cancioneiro goiano sem pudor pelos alto-falantes - e nessas horas se vê que Goiás Velho também sabe ser festiva como Pirenópolis, embora na superfície pareça sempre o contrário. Mas não ficamos (Rejane queria participar, me disse depois, eu queria dormir, nem preciso dizer, os meninos irritados de excitação e sono, enfim). Pegamos o caminho de volta, a estradinha pedregosa, rota de desenho infantil à luz dos românticos relâmpagos de filme de terror. Chegamos à Manduzanzan - é o nome da fazenda, fusão das palavras que batizam dois riozinhos que se cruzam por lá - e nos abrigamos no chalé de dois quartos. Havia ainda algum zum-zum-zum na fazendinha, restos da ceia que promoveram por lá.

Mas logo tudo se aquietou - e é precisamente aqui, neste momento, que 2008, iniciado já há uns bons dez minutos, abriu seu panorama anunciador. Só pra não deixar pontos obscuros, esclareço antes que a passagem propriamente dita foi dentro do carro, tentando sair da área urbana e pegar o início da estradinha. Alimentados, abrigados, esquentados sob lençóis e cobertores, as crianças dormindo, a tempestade tuberculosa dando seus espirros luminosos lá fora, o aconchego lá dentro, a cantiga retilínea do grilo, a consciência da presença de bois, vacas e cavalos lá fora, o verde momentameamente disfarçado pelo cobertor escuro-abrilhantado de estrelas da noite renovada, já quase dormíamos.

Foi quando o escuro se fez completo. Um raio mais atirado enlaçou a eletricidade artificial e o ano novo virou um inesperado blecaute. Mágica suspensão, promessa de início de ano límpido. Nada de luz artificial, nada de interruptores ansiosos, televisores tagarelas. Só o escuro, a voz do temporal perto e distante - e a eletricidade natural do relâmpago serrano.

Por esse relato, podemos dizer que começamos 2008 em branco - ou em preto. Ou em vácuo, bem vindo nada onde pouco a pouco vamos colocando nossas pequenas metas, nossos defeitinhos diários e um punhado de expectativas mensais. Foi assim como um recado: nada de exageros, opulências, grandiloquências. Um ano do tipo vintém de cobre - que é o título de um livro de Cora Coralina onde a poeta de Goiás celebra o valor imenso das coisas de pouca monta.



Escrito por tião às 13h32
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