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A brincadeira de Soderbergh
 
Isso é que é ter poder. O cidadão faz filmes que caem no gosto médio das multidões, enche as burras - dele e dos produtores - de dinheiro, coleciona amigos tão endinheirados quanto influentes e, com essa bola toda, resolve, assim como quem não quer nada, brincar de fazer hoje em dia um filme exatamente como aqueles que só se produziam em meados dos anos 40, ainda no calor da propaganda de guerra ou na esteira imediata do final do conflito.

O cidadão é Steven Soderbergh; entre os amigos influentes está George Clooney; e o filme de que se fala aqui é "O segredo de Berlim (The good german, 2006)". É a última brincadeira entre amigos do diretor de "Traffic". E é um privilégio sem tamanho, uma divertida exibição de prestígio. Sim, porque trata-se quase de um jogo, uma cara e sofisticada gingana bancada por um cineasta que sabe como atingir o alvo das bilheterias quando quer - e arriscar uma produção menos consumível quando pode - e já fez isso uma meia dúzia de vezes, vide "Solaris" e outros títulos.

"O Mistério de Berlim" destaca-se por uma vestimenta à parte, que pode ser resumida assim: um quase remake de "Casablanca" misturado com "O terceiro homem", no que, do primeiro, capta a atmosfera de romance entre as brumas da espionagem e, do segundo, um certo clima de perseguição esfumaçada algo noir e muito Fredrick Forsyth. Deu pra entender? Não? Alugue o DVD, esparrame-se em lugar conveniente, empanturre-se de pipoca - se lhe apraz, porque é bem o caso em questão - e ligue o cérebro apenas quando necessário.

É porque o resultado dessa miscelânea - sabia que um dia nessa vida usaria essa palavra, mas isso é outro assunto - naturalmente não pode ser levado a sério. Tanto que uma sensação de paródia muito certamente vai sentar ao seu lado na poltrona e, vez em quando, soprar aquela risadinha irônica no seu ouvido. Especialmente no iníco e no final do filme - este, uma variação possível e, levando em conta o caráter da brincadeira, muito bem feita do célebre desfecho de "Casablanca".

No miolo do filme, até que, envolvido com a narrativa de luzes, sombras, desconfianças e - claro - assassinatos, você vai esquecer um pouco que está assistindo a uma imensa citação ou a um gigantesco passatempo de um cineasta consagrado. Vai se envolver, naturalmente. Vai até se extasiar, como no caso da cena em que Cate Blanchett caminha pelos esgotos subterrâneos de uma Berlim destruída. Soderbergh está se divertindo, mas nem por isso está de brincadeira: repare na iluminação dessa cena que, contrariando a paleta sombria do gênero filme-de-guerra em geral, espalha bolhas de luzes onde menos se espera que elas apareçam. Um quadro que se completa com a elegância da atriz caminhando entre poças e ratos.

Pra terminar a conversa, vamos ficar mesmo com Cate Blanchett. Não sei se pelo talento da atriz, não sei se pela condução do diretor, o fato é que, desde a primeira aparição, essa bela e competente mulher nos leva a uma inevitável comparação: como ela nos lembra Marlene Dietrich enganando meio mundo em "Testemunha de Acusação" ou exalando comentários mudos e maldosos em "A marca da maldade". Não é qualquer uma que consegue provocar esse tipo de associação.

Seja qual tenha sido a pretensão de Soderbergh, seu filme dá a impressão de que tudo não passou da brincadeira inconseqüente que de fato é (tanto que o filme aqui nem foi lançado nos cinemas, saiu direto no DVD). Mas o recheio nos presenteia com uma cena ou outra que vai além do simulacro, como convém a quem sabe fazer, domina o alvo e por isso mesmo esbanja poder.


Escrito por tião às 18h56
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